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Carne Viva é impactante: começa com esse sugestivo título e já na página seguinte se desdobra em outras duas palavras - "cerne vivo" - para demonstrar com clareza que sua matéria é a linguagem poética e a essência humana em sua crueza: o ventre aberto, ainda que com gestual aparentemente cortês por parte da mulher que o abre, de Pietro da Cortona, não deixa dúvidas, pois é de seu interior escuro que emergem essas palavras, projetadas como numa tela, como se viessem de um interior obscuro e inescrutável, inescrutável sobretudo porque o senso comum age para negá-lo.

Temos, então, certeza de que estamos lidando com poesia no que ela tem de mais próprio, que é a negatividade em sua intenção de expor o que é obscuro e inescrutável. Lendo com Cioran, podemos ver aí a negatividade necessária para realizar um ato de barbárie, isso porque se deve dizer com toda vitalidade que se morre e não se pode ocultá-lo, indo-se contra a natureza humana que anseia por uma idéia sublimada de civilidade que oculta à negação a finitude que encobre o ser em cada ato de sua vida.

O apuro formal desse livro, assimiladas as melhores virtudes do concretismo, assim como as preleções de Pound e Mallarmé no trato com a linguagem, resulta num conjunto de poemas de alto nível em que nada sobra e a linguagem, em sua essência, se mostra com exuberância ao olhar.

Se em alguns momentos um ou outro poema nos soa simplista, como "egg/ego", dada a extrema secura de elementos que se chegou para expressar uma idéia, por outro lado poemas de mesmo gênero como "guarDAR", "péssarinho" ou "cicatriz" nos empurram no sentido oposto, ou seja, de que a linguagem poética está altamente tensionada. A soma, portanto, de negatividade poética com apuro formal transforma Carne Viva num belo trabalho e nos dá a conhecer um poeta que já está entre os melhores da atualidade.

Ademir Demarchi (Poeta e Editor da revista de poesia BABEL POÉTICA)

 

 

 

A Poesia em Carne Viva
Márcio Scheel - Tribuna Impressa, de Araraquara

O filósofo alemão Martin Heidegger, no ensaio La Palabra , sobre um poema de Stefan George, se pergunta, num determinado momento, se há, para o poeta, algo mais excitante e perigoso do que a relação com a palavra. E o mesmo filósofo responde que dificilmente. A idéia proposta por Heidegger é a de que nada existe, coisa alguma, onde falta a palavra. A relação com a palavra, o estar próximo de seus sentidos, o gesto notadamente humano - e quase que esquecido - de vivenciar seu enigma inviolável, suas profundezas insondáveis, é o destino ao qual se dá o poeta. Se nada existe onde falta a palavra, o poeta só ganha corpo e se afirma a partir do cerne mais íntimo da poesia. O poeta faz da linguagem, da consciência particular e individual da linguagem poética, o reflexo vivo de si mesmo, seu lugar primordial, sua afirmação. Dessa forma, o poema deve ser, antes de tudo, um lugar de encontro e reconhecimento. A descoberta espantosa de si.

Foi assim que li os poemas de Carne Viva, segundo livro do poeta carioca Marcelo Sahea (o primeiro, criado na forma de e-book, saiu em 2001 sob o título de `ejs). Aos trinta e três anos, Marcelo concebe uma poesia que aceita e admite, profundamente, a excitante e perigosa relação com a palavra. É verdade que o autor paga uma espécie inegável de tributo à experiência poética aberta pelo concretismo, mas não se deixa reduzir as facilidade e diluições que o estilo acabou imprimindo na obra de vários poetas que se aproximaram da principal herança concreta: uma poética verbicovisual, que privilegiasse, a um só tempo, a notação verbal, icônica e visual que a linguagem traz em si. A poesia de Sahea estabelece um diálogo essencial com a materialidade e a visualidade da linguagem, mas não cai na armadilha autista de uma poética que se volta unicamente sobre si, feito o Narciso que se afoga em suas próprias e inconfundíveis ilusões.

Esquecida de que o poema é para o outro, e só existe em função deste, a herança concretista acabaria perdendo de vista o fato de que a poesia instaura e restaura o mundo, de que ela também pode se sustentar como uma tensa expressão do pensamento, como uma forma de atingir a consciência do que somos, uma espécie de sentido agônico da nossa existência. Desse modo, num dos melhores poemas do livro, temos, contrariando Heidegger, a ausência da palavra assim como a compreendemos - signo verbal, transcrição fonética da fala que, de outro modo, estaria para sempre perdida, significante e significado arbitrariamente entrelaçados: Cicatriz prescinde da palavra, é pura visualidade. Sobre a imagem da pele e suas marcas, poros, pelos e contornos, vemos pontos que se fixam e formam, em braile, a sugestiva palavra dor. Forma e conteúdo rompem os limites do verbo e comunicam esse que talvez seja o mais característico dos sentimentos: a dor, que se fixa no corpo, pegada à pele, como marca indelével de nossa própria condição. É preciso compreender que há uma metafísica secreta na mudez sugestiva do poema, ou corre-se o risco de tomá-lo como uma desnecessária banalidade, como diluição ou pastiche dos primeiros poemas visuais publicados pelos irmãos Campos ou por Décio Pignatari.

Nesse sentido, Marcelo Sahea reconhece a vocação da poesia em ser muito mais do que um jogo, uma brincadeira pueril e inocente com a linguagem, essa nossa eterna e inconfundível estranha. Ao contrário, em a pena , temos o registro da inquietação mais premente dessa escritura que se força e obriga a ir além: que vale mais/ a pena:/ penar com/ a pena/ ou pensar/ apenas? . O poeta não perde de vista esse incômodo absoluto que o faz caminhar sobre a tênue fronteira que separa o jogo da materialidade icônico-verbal da linguagem poética, proposto pelo concretismo e esgotado com ele, da poesia como uma forma de mergulho abissal nas questões essenciais do pensamento. A dúvida do poeta nasce desse tormento irreconciliável entre o pensar em si mesmo, livre de todas as implicações da escritura - o pensar como ato contínuo kantiano - e a tentação de prefixá-lo no interior do poema. É o que vemos em pensamento : vem de lá/ vem daqui/ vem de onde/?// se esconde/ vem no vento/ é de nascença/?// responde à minha indiferença?// compensa/?// no momento/ há mais coisas/ no pensamento/ que na despensa.

Marcelo Sahea atualiza a experiência estética aberta pela poesia Concreta, mas vai muito além da necessidade imediata de ocupar os espaços vazios da página - como fizeram os tributários do mesmo concretismo -, de dar uma visualidade direta e real ao poema, alheia e muito diferente do simples registro metafórico. Sahea faz com que poesia flerte constantemente com o pensamento enquanto exercício definidor de nossa liberdade original, num esforço agônico de comunicação que se sustenta a partir da vida mesma, sem cair na armadilha de esterilizar as dúvidas mais prementes que nos tomam por meio de uma poética auto-referencial, em que impere o autismo narcisista de que já dei notícias. E em poemas , podemos entrever com clareza a secreta proposta do poeta: certos poemas vêm de repente/ voam baixo passam rente// ônibus virando a esquina// certos poemas vêm num flash/ queimando a retina// contorno forma consistência// certos poemas têm urgência/ de vida e são precisos// pau que endurece sem aviso// latência/ sorrisos.

Carne Viva admite os riscos de vivenciar, através da poesia, a excitante e perigosa relação com a palavra. Por isso, temos, ao longo de todo o livro, uma espécie de pensamento manifesto, que se afirma e se revela por meio das infinitas sutilezas que a palavra poética sugere. E a palavra se manifesta como a forma viva de uma poesia que se anuncia a partir de si mesma, mas não abre mão, ao contrário, admite o outro, dialoga com o mundo e revela nossa sempre conturbada experiência com a linguagem, nosso precário esforço de comunicação com as coisas, os outros seres e, em suma, a vida a qual nos demos. Os poemas de Marcelo Sahea falam mesmo quando correm o risco extremado da mudez, da ausência, da falta das palavras, sem as quais, segundo Heidegger, nada existe. A poesia, então, é arte de fundar o mundo.

 

 

 

Esse livro é uma lâmina de dois cortes que prima pela agudeza do rigor formal, de um lado, e pelo torque da potência poética, pelo outro, abrindo um rasgo no umbigo do ego da poesia brasileira deste início de século. aliás, me identifiquei logo de cara com a capa,ventre aberto parindo o livro. no miolo o vermelho-sangue da tinta impresso na pele das páginas.

Tudo muito bem arrematado. os poemas visuais exatos, a diagramação enxuta, a sensualidade úmida. marcelo é afiado e afinado com algumas das vozes mais ruidosas e desconcertantes da atualidade e não está de brincadeira.


Makely Ka - Poeta e Músico

 

 

 

 


O segundo livro de Marcelo Sahea carne viva vem embrulhado numa gaze, na capa (um desenho de Pietro da Cortona) uma mulher abre gentilmente seu ventre, a tarja vermelha, igual embalagem de remédio, completa a composição. Logo de cara Sahea dá contornos de livro-objeto à publicação. Invólucro extremamente coerente ao conteúdo, pois se trata de poesia viva e pulsante que extrapola as páginas do livro. A impressão em vermelho remete a Nietzsche: "De tudo aquilo que é escrito, me faz gosto de fato apenas aquilo que alguém escreve com sangue. Escreva com sangue e haverás de experimentar que sangue é espírito".

A sugestão plástica inicial é poderosa, assim como toda a composição do livro.

Já nos primeiros poemas somos convidados a penetrar a ferida aberta, o âmago de sua poesia, o parto (criação) se transforma em porta (fruição). O concretismo é uma forte referência, engana-se, no entanto, quem pensar aqui em poesia concreta como hermetismo. O rigor formal de c arne viva jamais torna seu texto difícil, inacessível, pelo contrário, a concisão, a exatidão de sua poesia busca a essência da linguagem. Não há espaço para o excesso, Sahea é um minimalista, um escultor da palavra que lapida e reinventa o fazer poético. É justamente nessa essencialidade que reside a força de sua poesia.

Verdadeiros achados compõem carne viva , como o poema "tabu", onde a palavra tabu encontra-se dentro da palavra buceta, o poema "guarDAR", em que o poeta aponta dois significados antagônicos coexistindo placidamente na mesma palavra, em "dream/merda" uma simples mudança de lugar das letras da palavra dream, resulta na palavra merda, gerando uma re-significação rica em associações . Há também poesia visual: em "cicatriz" a palavra dor aparece escrita em braile fixada na pele, em "péssarinho" dois pés juntos imitam o vôo de um pássaro.

Embora o concretismo permeie todo o livro, seria equivocado impingir um dogma à poesia de Marcelo Sahea, sua poética verbicovisual prescinde qualquer tipo de camisa de força, é carne viva à flor da pele.

Sandro Eduardo Saraiva - Editor da Etcetera - Revista Eletrônica de Arte e Cultura

 

 

 

This is your body, This is your blood
Geoffrey Huth - poeta visual norte-americano

The title is simple to understand, even with my childhood Portuguese almost totally lost. carne viva::live meat or live flesh. The title, appropriately enough, appears over an illustration of a woman holding open the flaps of skin that should cover her mid-section, thus allowing us to see the darkness inside her body. The title, also appropriately, floats within a red band that crosses the cover of the book. If we open the book, the first page is a closeup of the red darkness inside the woman, and the title there is cerne vivo: live kernel, or live cell or live essence, or the gist or theme of a literary work. Puns might be the lowest form of humor, but they are the highest form of meaning. Every sound, every shape, holds the possibility to mean something else.

And that is how Marcelo Sahea introduces us to his book, with the title and the faux-title page serving as the opening pun, the first foray into meaning-making.

There is a perfected balance in the gestalt of his "mente/corpo." The "SOM" ("sound") sits atop and almost mirrors the "SÃO" ("healthy") right below it: the S's repeat each other, the angular M works perfectly in opposition to the circular O, and as is the case with the A in "SÃO" and the O in "SOM," although the tilde also cradles the O that rests above it. The piece works with positive and negative space, because it is comparing opposites. In some ways, "sound" and "healthy" are synonyms, but they define a pair of opposites that can exist only together: mind ("mente") and body ("corpo"). This poem is about human existence and about the need to hold opposing selves together to form a healthy human.

"DiEtA" ("diet") is unique in this book, for not being a totally clean concrete poem. Instead, it is a bit jagged in construction, seemingly handwritten. This poem must mean something more than "diet." The "die" appears to imply that "dieting" leads to death (or that death is inevitable despite what one eats). But the real hint might be with the cruciform t in the center of the poem, which makes us imagine Christ (sometimes, X) dying on the cross, so that we might eat him at Mass and become one with God.

The most visual of these pieces is "cicatriz" ("scar" or, of course, "cicatrix"). We are looking at—not feeling with our fingertips—the word "dor" ("pain") in Braille. Is this meant to stand in for a branding? Are we supposed to feel a certain sense of irony because of the idea of a visual word for the blind? Are all people's bodies scarred with the words they've used?

Sahea ends with a shaped poem, the oldest of visual poetry forms—and he uses one of the most common of shaped in shaped poetry, the egg. One of the most famous of early visual poems was Simmias of Rhodes' "Egg," which Sahea remembers here in a roughish approximation of an egg built around and ego. In every egg, there is the possibility of a person.

Sahea's is a small book that sits in your hand and makes each of its points with red ink on white paper. That is important.

 

 

 

Prestem atenção porque eu sei o que estou dizendo: os poemas gráfico-visuais de Marcelo Sahea (principalmente a seleção que está no livro carne viva e, especialmente, o poema gráfico-sonoro "cigarra", que tive o prazer de publicar na revista Oroboro 1) são uma boa surpresa na área.

Das coisas simples às mais elaboradas, carne viva transmite humor, amor, liberdade, lirismo e inteligência – e tudo funcionando como argamassa da estrutura racional que esse tipo de poesia exige. uma beleza o achado da palavra "tabu" dentro da palavra "buceta".

Ricardo Corona - Poeta e Editor da Revista de poesia e arte OROBORO

 

 

 

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