Performance + oralização a partir de excerto desconstruído da obra "Catatau" de PAULO LEMINSKI (BRA)

 

OUÇA COM SEUS FONES DE OUVIDO

 

 

 

Sarava Uivo,
Videoperformance
Digital Video, 03'40", 2012
Câmera, Edição, Composição, Sound Design e Performance: Marcelo Sahea
Samples: Tim Prebble


I

 

Ao ser convidado para participar do happening 100 CAGE (5 de setembro de 2012, Tucarena - SP / Inspirado nas apresentações/experiências interdisciplinares de John Cage, com participações multimídias de: aline kaedo, ana salles, ariane stolfi, arnaldo antunes, arrigo barnabé, augusto de campos, beto firmino, bruno schiavo, camila picolo, cesar gananian, cid campos, cléo dobberthin, daniel avila, daniel scandurra, danielly omm, diego diasa, emanuel pimenta, eric drummond, francisco frança, felipe ribeiro, gabriel kerhart, gabriel bogossian, gregorio gananian, guilherme do vale, ivan cardoso, jards macalé, juliana de lamare, id ego, inácio junior, lama glama, lúcio agra, natália barros, marcelo sahea, oficina free, paulinho inn fluxus, quadradão, rachel pacheco, roberto michelino, rômulo alexis, rosa laura, thereza do amaral, toshi tanaka, vanderley mendonça, vera terra, walter vetor, william zeytounlian, wilson sukorsky), como parte das homenagens pelo centenário de seu nascimento, já vinha desenvolvendo há algum tempo na minha cabeça uma peça em sua homenagem.

Em nenhum momento minha intenção foi a de reproduzir alguma de suas performances ou experimentos, mas pôr em prática um trabalho pessoal que fosse larva de minha lavra, impulsionado pela paixão, pelo resultado prático de minhas inquirições e com a contribuição de alguma operação randômica.

 


II

 

Trata-se de um texto-partitura para performance com o título de Sarava Uivo, cujo processo de criação se dá à semelhança do poema de minha autoria denominado dentro, que apresento no palco desde 2008 (in Pletórax), e tentarei descrever a seguir.

Para gerar um texto indecifrável semanticamente, mas dotado de sonoridade, quis extrair amostras de uma obra emblemática e que, dentre algumas, fosse importante na minha (de)formação. Optei por Catatau, de Paulo Leminski (Editora Sulina, 2ª edição, 89).

Para chegar às amostras do livro, usei as datas de nascimento e morte do homenageado para definir as páginas a serem utilizadas:

 

Nascimento
5+9+1912=1926 / 1+9+2+6=18

Morte
12+8+1992=2012 / 2+0+1+2=5

 

Fotografei a 5ª e a 18ª página do livro de Leminski (no exemplar que possuo, o texto começa efetivamente na página 13). Extraí da página 5 todas as consoantes e, da página 18, todas as vogais:

 

Página 5 = VOGAIS

 

 

 

 

 

Página 18 = CONSOANTES

 

 

 

Catatau então deixa de ser Catatau, mas o seu dna continua impregnado.

Sentado à mesa de um café, aglutinei na mesma página as vogais e consoantes que consegui, gerando assim um outro texto, único. Enquanto realizava manualmente a tarefa, cometi alguns erros - por distração -, e antes que retomasse o trabalho do início, resolvi acatá-los na esperança de que deles uma surpresa surgisse. E assim se deu ao fim da transcrição, quando saltaram da página as palavras Sarava Uivo.

 

 

 

Feliz com o achado (e, cúmulo do absurdo, crendo ter encontrado nestas palavras uma correspondência com o Viva Vaia de Augusto de Campos), mantive a diagramação, que para o vídeo teria de ser reduzida.

Assim, lancei sucessivamente 3 dados pequenos (3 x 6 = 18) para definir as palavras que comporiam a partitura para a versão filme.

 

 

 


III


Meu próximo passo foi determinar um procedimento que me conduzisse à fórmula para a oralização do novo texto. Após tentativas frustradas de conseguir uma partitura com sua estrutura rítmica eou melódica a ser definida por fontes (tipos), passei a alimentar a ideia antiga - e nunca realizada - da utilização de um piano.

Mas eu não tenho um piano e não havia tempo hábil para conseguir um.

Lembrei-me do neozelandês Tim Prebble, sound designer e premiado compositor de trilhas para cinema, que disponibiliza arquivos de áudio das suas gravações com microfones de contato. Lembrei-me, particularmente, de seu Tortured Piano, em que ele capta sons que consegue 'torturando' um velho piano.

Após apresentar o meu projeto para Tim, obtive sua feliz autorização para que eu seguisse adiante, oferecendo-se ainda, para enviar novo material, caso fosse necessário.

Não foi.

Usando seus samples, compus a trilha que guiaria minha performance.

 

 

 

Marcelo Sahea
agosto, 2012